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Resenhas da Janu

Resenhas

"Por que mesmo devo ler Machado de Assis?"

 Tenho dois filhos: um com 16 anos e o outro, com 14. Ambos, às voltas com Machado de Assis. Experiência fenomenal, essa. Fenomenal como Machado, que atravessa gerações provocando: amores, rejeições, encantamento, suspiros de emoção ou de impaciência.

 Ambos leram os contos mediados pela escola, aqueles sem os quais não se pode afirmar que se conhece o melhor do conto brasileiro: “ O Alienista” (que muitos questionam se é mesmo um conto),  “O Espelho”  e “Pai contra Mãe”. E ambos saíram dessas leituras comentando, discutindo, querendo entender mais sobre as relações entre os seres humanos, sobre a loucura e a sanidade, sobre o amor  (e o desamor, porque não?) entre pais e filhos, e tantas outras problemáticas que esses contos suscitam.

Em meio a tantas perguntas – entremeadas de algumas reclamações da linguagem machadiana, que requer um esforço extra para o entendimento -  finalmente entenderam porque Machado está para além das aulas de literatura e do vestibular: ele inquieta e oferece incertezas e, por isso, nos torna mais do que leitores de contos e romances, de fato, nos forma leitores de nossas próprias vidas.

Pensei eu que talvez apenas essa constatação bastasse para por fim à discussão que se colocou aqui em casa antes da leitura dos contos, aquela clássica de muitos jovens leitores:  “Por que mesmo devo ler Machado de Assis?”. Porém, uma outra mais forte me fez tentar arrematar as razões que fazem de Machado uma leitura imprescindível: talvez sigamos encontrando, ao longo de nossas vidas, outros tantos motivos para lê-lo, como bem os explicita o professor aposentado de Estudos Brasileiros na Universidade de Liverpool (Inglaterra) John Gledson, em sua brilhante “Breve introdução aos contos de Machado de Assis” no livro que organizou “50 contos de Machado de Assis”. “Nunca devemos subestimar a ousadia, a originalidade e a independência de Machado”, avisa Gedson em seu prefácio de “Papéis avulsos” livro de contos selecionados pelo próprio Machado. O que quer dizer que é sempre possível encontrar outras leituras, surpresas e inquietudes na obra do chamado “Bruxo do Cosme Velho”. Cada leitura e releitura nos revela mais sobre nós mesmos, como vivenciou o personagem de “O Espelho”.

Bem, no final, foi esse argumento que encerrou a discussão aqui em casa. Pelo menos até a leitura do próximo conto ou romance de Machado de Assis.

 PARA LER MACHADO DE ASSIS:

 Todos os romances e contos consagrados (Box Editora Nova Fronteira),

 50 contos de Machado de Assis e Papéis Avulsos (Companhia das Letras)

 

19 de julho de 2016 - 16:46:15 por JANUÁRIA CRISTINA ALVES
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