< Voltar

Blog da Janu

A Jornada do Leitor: a aventura da leitura

Um dos livros que são minha referência é O Herói das Mil Faces (Editora Cultrix/Pensamento), de Joseph Cambpell. Não só porque, por meio dele, aprendi muito sobre mitologia, mas porque ele me abriu infinitas possibilidades de ler e escrever histórias. Baseado nessa obra Christopher Vogler, roteirista hollywoodiano, escreveu A jornada do escritor – estrutura mítica para escritores (Editora Aleph), que não só retoma os conceitos abordados por Campbell, mas os aplica ao ofício de escrever. A leitura e releitura dessas duas obras me fez pensar sobre o papel do leitor.

Nos dias de hoje, em que ler tornou-se uma tarefa para poucos, “para aqueles que têem tempo”, faz-se necessário refletir sobre o ato de ler que, como qualquer outro, exige além de tempo, um certo esforço e persistência. Ler um livro é diferente de ler uma bula de remédio, um anúncio de jornal, uma receita de bolo. Requer do leitor uma atitude e uma postura diferenciadas, afinal, quem lê um livro busca também informação, orientação, conhecimento. Mas busca, sobretudo, uma experiência.

Ler para aprender, para se informar, para sobreviver na sociedade letrada. Todos esses são excelentes motivos para se comprar um livro, mas o livro que inspira a verdadeira Jornada do Leitor é aquele que aciona em nós a emoção, a imaginação, a criação, o pensamento livre, é aquele que provoca em nós uma vivência, sempre pessoal e intransferível. E essa experiência é a grande aventura.

 A Jornada do Herói é composta de 12 passos e ao observá-los com atenção, percebi que eles têm muito a ver com a Jornada do Leitor que busca a verdadeira experiência da leitura. Tal como os heróis da mitologia, o leitor sai do seu “mundinho seguro” e, ao abrir um livro, sente o “chamado para a aventura”. À princípio – ainda mais se for um livro que exige um maior “fôlego” – ele tenderá a recusar o convite, mas depois, ao encontrar-se com aquele “mentor” que está sempre presente para ajudar o herói a encarar seu destino (seríamos nós os pais e professores os mentores do nosso leitor?), vai topar o desafio. E então, começa a sua trajetória.

Fico pensando que o primeiro e grande desafio desse jovem leitor contemporâneo é a paciência para atravessar a narrativa, para entender o cenário, o contexto da história, para compreender os personagens. Num mundo onde tudo é fugaz, a leitura sempre nos convida a ir devagar, a ler e reler, a respirar antes de virar a página, atitudes que a “era dos eletrônicos” abomina. A provação do leitor aqui é aprender que a leitura oferece prazeres menos fugidios e que, para tanto, convida à apreciação, à contemplação, à reflexão. Difícil ler como se joga videmogame, não?

E não fique aí pensando que eu acho que os inimigos do nosso herói leitor se resumem aos videogames, smartphones e artefatos eletrônicos. O grande inimigo a ser vencido é, na verdade, a superficialidade que se alastra em nosso mundo contemporâneo. Isso porque cada aventura, história de ficção, cada biografia, exige que acessemos em nós referências, memórias, vivências que nos ajudarão a compreender – e a gostar! – do que estamos lendo. Sem repertório, não entederemos o que precisamos aprender nessa jornada, para, como os nossos heróis míticos, sairmos dela transformados. E repertório é a soma dos conhecimentos que adquirimos na vida e o sentido que a eles atribuímos.

 Não sem esforço conquistaremos o mundo da leitura. Por isso, o paralelo com a Jornada do Herói fez tanto sentido para mim. Ler e aprender são tarefas exigentes e talvez por isso, tão prazerosas. Ao final  da jornada, o herói sai renovado, satisfeito com sua conquista e ainda leva adiante o que aprendeu. Se compreendermos o valor da travessia de tantas páginas, da paciência e da concentração, e os benefícios que esse mergulho profundo em nós mesmos nos traz, com certeza estaremos mais aparelhados a viver com coerência nesse mundo em que parece que tudo o que é sólido, pode derreter.

 

Para saber mais sobre esse tema, leia a entrevista da autora para o Site Para Educar 

06 de junho de 2017 - 13:37:59 por JANUÁRIA CRISTINA ALVES
Compartilhar

Comentários (2)

  • Sylvia lavinia

    26 de maio de 2016 - 15:05:16

    Que linda e interessante reflexão . A leitura é e sempre será um instrumento de transformação ! Parabéns Januária !
  • Taciana de Castro Montenegro

    24 de junho de 2016 - 21:43:51

    Fico pensando que o primeiro e grande desafio desse jovem leitor contemporâneo é a paciência para atravessar a narrativa, para entender o cenário, o contexto da história, para compreender os personagens. Num mundo onde tudo é fugaz, a leitura sempre nos convida a ir devagar, a ler e reler, a respirar antes de virar a página, atitudes que a “era dos eletrônicos” abomina. A provação do leitor aqui é aprender que a leitura oferece prazeres menos fugidios e que, para tanto, convida à apreciação, à contemplação, à reflexão. Difícil ler como se joga vídeo game, não? Colei essa parte do seu comentário,porque sou assídua na prática mencionada no seu texto. Muitas vezes não compreendo o que o autor que expressar. Tem mais Januária , não leio muito , sou mas de ler revistas, textos ,enfim tentarei ler mais. Bjss.

Adicione seu comentário